Caligrafia, Lettering e Tipografia: As Formas de Criar Letras

Há grandes chances de você, que está lendo esse artigo, já ter visto outros artigos que falam sobre criação de letras. Diferente dos que você já leu, neste texto buscaremos aprofundar não só a definição de cada termo, utilizando para isso alguns grandes nomes da área, mas também mostrar zonas em que os conceitos se aproximam.

Tipografia, lettering e caligrafia são campos diferentes, mas ao mesmo tempo compartilham o ofício de trabalhar com o desenvolvimento de letras, um universo tão próximo mas com suas especificidades. É sobre esses aspectos que vou falar.

Definindo as formas de fazer letras

Em um debate sobre lettering do DiaCrítico, Marina Chaccur definiu quatro formas de criar letras: a escrita, a caligrafia, o lettering e a tipografia. Nessa compreensão, a caligrafia e a escrita ainda que próximas são consideradas áreas separadas. A caligrafia aparece, assim, como uma forma diferente de escrita, a arte da escrita bela como indica a própria morfologia da palavra.

Outra visão desta separação está num abordagem que encontramos alguns teóricos como os professores Fernando Loaiza, Jorge Valencia e Ruben Gutiérrez. Em seu livro Caligrafia Expressiva afirmam que dentro da caligrafia existe um tipo específico chamado escrita.

Neste sentido, a caligrafia seria uma forma de desenhar letras que se preocupa especificamente com a legibilidade. Essa abordagem também resolve o problema do uso comum da palavra caligrafia. Apesar de subverter a morfologia da palavra uma “caligrafia feia” seria aquela que não cumpre o seu objetivo de comunicar através de palavras, sem adequada legibilidade.

Escrita

Voltando ao discurso de Marina Chaccur, teríamos…

Letra manuscrita: “O que temos no dia-a-dia, a escrita de cada um.”

Fonte: Giphy

Durante muito tempo a letra manuscrita caminhou junta com a caligrafia, que falaremos logo a seguir, mas no início do século passado, no Brasil em torno de 1920-1930, começou o debate entre a caligrafia como fim ou como meio.

Como fim, ela deveria ser uma disciplina aplicada por si só. Assim, o importante neste caso seria antes de tudo “ter uma letra bonita”. Como meio, ela deveria ser pensada como uma forma de gerar comunicação, a mensagem transmitida seria mais importante. Nesse contexto, é que se separa a escrita, que então passa a ser referenciada como lecto-escrita; e a caligrafia.

Quem quiser saber mais sobre o desenvolvimento dos modelos de caligrafia no Brasil, recomendamos a dissertação de Sandro Fetter, Modelos caligráficos na Escola Brasileira: uma história do Renascimento aos nossos dias.

Caligrafia

Diferenciando caligrafia da escrita, a designer define assim o termo:

Caligrafia: “Escrever com intuito de fazer uma letra bonita a partir de uma ferramenta específica para fazer letras.”

Fonte: Thiago Reginato

Em seu livro Contrapunção, Fred Smeijers afirma que “letras escritas podem ser usadas apenas durante o próprio processo de escrita: o momento de produção e de uso são o mesmo”.

Pensando desta maneira, se utilizarmos um papel manteiga para reescrever o texto escrito e aprimorar sua forma ou se recortarmos as letras escritas para reordená-las, estaríamos em outro nível que não seria o da escrita e/ou caligrafia.

Smeijers ainda acrescenta que “a escrita acontece apenas quando se faz letras com as mãos (ou outra parte do corpo) e quando cada parte significante da letra é feita em um traço”. Ou seja, se você utiliza de um computador para “escrever” isso não é escrita. Ao mesmo tempo, se você criou a letra  e utilizou mais de um traço por haste, isso também já não é escrita e/ou caligrafia.

Bonito, né? Apesar de impressionar, o AxiDraw não é produzido pelo corpo humano. Em alguns casos, as letras também são geradas por vários traços. Segundo Smeijers isso não é caligrafia.

Lettering

Recorrendo mais uma vez à fala da Marina Chaccur, temos que…

Lettering: “Desenho de letras e palavras; construção da forma; não necessariamente vem de uma ferramenta própria; você pode ajustar quantas vezes for, seja manualmente ou digitalmente; e a base do lettering pode vir tanto de um caligrafia ou escrita quanto de um tipo.”

Provas e testes para um lettering. Até o resultado final o autor pode abusar de testes e alterações até achar a composição final da peça gráfica. Fonte: Marina Chaccur

Quando falamos em lettering como letras desenhadas, falamos também em caneta e papel e isso pode gerar confusão com a escrita. Para evitar essa dúvida, Smeijers afirma que “[…] o escopo do lettering é muito mais amplo do que as formas que se pode desenhar no papel. Ele também inclui letreiros de neon em prédios, ou letras gravadas em lápides”.

Você nem imaginava, mas as placas de publicidade em neon também podem ser consideradas como letterings.

Tipografia

Como sempre, começaremos pela definição da Marina Chaccur:

Tipografia: “Type design (desenho das letras, e programação de uma fonte digital); e tipografia (uso de tipos, escrever com formas pré-fabricadas).”

tipos

Novamente recorremos também a Smeijers. Ele diz que “em Tipografia, a composição da palavra, assim como a confecção das letras, é regulada pela fabricação à máquina”. Isso significa que é a máquina quem dita as regras por aqui.

Enquanto agrupa tipos móveis um a um para criar uma matriz, encara-se as limitações da máquina. Os tipos devem ser padronizados, existe um limite de largura de linha.

Outro fato importante é que a tipografia existe para que os glifos criados sejam usados em qualquer composição. Rubén Dias e Ana Félix ressaltam que “o desenvolvimento de tipos de letras pressupõe que os caracteres são elaborados como ‘peças’ únicas e individuais que podem ser recompiladas de inúmeras formas distintas permitindo a construção de um sem fim de mensagens distintas.

Onde se diferem?

Modo de produção

O principal ponto que difere os três termos é o modo de produção da letra. Com relação à forma de construção, a caligrafia é criada por um único ou poucos traços. Esses traços seguem uma linha básica chamada de ductus.

O ductus é essa linha imaginária branca que seguimos com a ferramenta caligráfica. A grossura e comportamento do traço é criada pela tipo de ferramenta e de manipulação pelo calígrafo.

No lettering, o desenho pode até partir de um traço caligráfico, mas ele sempre passa por ajustes que vão redimensionar, reposicionar ou redesenhar as letras até que se chegue ao resultado final desejado.

Enquanto a caligrafia parte de uma linha guia imaginária (o ductus), o lettering parte do contorno da letra. Por isso se diz que a escrita (ou a caligrafia) nasce de dentro para fora enquanto o lettering é formado de fora para dentro (do traço). Quando cria um lettering, o designer normalmente pensa primeiro nas paredes de cada glifo para só depois pensar em seu preenchimento.

Fonte: Sean McCabe

Neste momento você deve estar se perguntando: “Ei, mas criar a letra pelo contorno é o mesmo princípio que rege a tipografia”. E é isso mesmo. A diferença entre os dois processos está no objetivo final. Enquanto o lettering visa uma peça única final, com combinações específicas de letras, na tipografia cada letra é desenhada para ser reaproveitada em qualquer tipo de combinação. Desta forma, um “a” será o mesmo na palavra “casa” como na palavra “escola”.

E onde eles se parecem?

Planejamento

Quanto ao planejamento para a construção das letras, lettering e tipografia se assemelham pois são desenhadas antes que possam ser digitalizadas (no caso de criação de fontes digitais), ao mesmo tempo que se diferem quanto ao alinhamento e espaçamento porque os type designers contam com a ajuda de ferramentas para isso, e letristas fazem esse processo de modo óptico.

Um detalhe em comum que traz todo um diferencial no lettering e na caligrafia são o uso de alongamentos ornamentais em caracteres. Falando nesses dois termos, um exemplo bem interessante de comparação entre ambos é um desafio de construção de letras sob as duas perspectivas, por uma letrista (Martina Flor) e por um calígrafo (Giuseppe Salerno), você pode conferir em: Lettering vs. Calligraphy.

O lettering toma por base tipos e caligrafias já existentes para a construção do mesmo, por isso, segundo Leonardo Buggy, tipografia, lettering e caligrafia são três expressões gráficas distintas possíveis de serem empregadas por uma mesma língua simultaneamente. Hoje, devido à abundância tecnológica de ferramentas da comunicação visual, o aspecto imagético das letras resultantes de cada uma dessas expressões não é plenamente suficiente para determinar sua origem. É necessário que se observe técnicas e procedimentos empregados na produção de cada letra para determinar sua origem.

Logo, assim como o lettering se baseia em tipos e escrita caligráfica para a construção do mesmo, também podemos ter uma tipografia semelhante a caligrafia, ou um desenho caligráfico bem trabalhado a ponto de parecer um lettering. Veja abaixo alguns exemplos:

Esses foram exemplos de letterings que têm como inspiração modelos caligráficos e/ou fontes tipográficas já existentes, e que adaptam ao seu estilo aplicando volume, textura e transformando numa nova composição.

Esses são exemplos de famílias de fontes script da DearType.

Além do exemplo onde uma tipografia pode simular o traço caligráfico, temos também situações em que a tipografia, através de recursos OpenType e do uso de ligaturas, pode simular resultados de lettering.

A recém lançada Tupã, de Diego Maldonado possui um conjunto de ligaturas que podem ser combinadas de diversas formas. Uma pessoa desavisada poderá pensar que aquele resultado é único, mas na verdade não é.

 

Observem a palavra strong. Ficou bonito, né? mas ainda assim, este é um resultado tipográfico e não um lettering.

 

O processo de composição deste lettering começa com o processo caligráfico mas o extrapola e ganha diversos recursos e ajustes até o resultado final (Fonte: Jackson Alves)

Visto todos esses exemplos podemos perceber que da mesma forma que esses processos de construção são o principal meio de diferenciação entre si. Também podemos ver que são métodos que podem se auxiliar para a construção de uma letra final digitalizada ou não.

Como assim? Por exemplo, posso construir uma fonte tipográfica a partir de um lettering com o estilo que eu desejar, ou até mesmo a partir da escrita caligráfica. Portanto essas técnicas de construção de letras podem trabalhar juntas para obter determinado fim.

E então?

Como vocês puderam perceber, esses conceitos são diferentes sim. Quando pensamos em cada um deles, pode parecer fácil entender o que é um ou outro, mas ao mesmo tempo é difícil dizer onde um termina e outro começa.


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Se tem alguma crítica ou sugestão, fique a vontade para deixar um comentário 🙂

Até a próxima!


Agradecimentos a Eduardo Novais que contribuiu com esse texto.

Raissa Frota

Estudante de Sistemas e Mídias Digitais (UFC), fascinada pelo universo da tipografia e apaixonada por fazer letterings <3 Alguns deles podem ser encontrados no meu insta @raissa_dsantos

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